quarta-feira, 22 de abril de 2026
sepultura
sábado, 24 de janeiro de 2026
Sem Tempo
Não escute esse chamado
Pode ser tarde demais
Há tanto a dizer, tanto a fazer
e nenhuma vontade
me deito sozinha
e não abro a porta
amparo meu ser
desabo na angústia
O que não é de hoje
O que vi não é passado
No sem tempo - perdoado
No aqui mal realizado
Me deixe esquecer
que um dia te vi
Me deixa esquecer
que um dia te quis
O que tenho para dar
nenhum destino recebe
Solto, sozinha, no espaço
à espera
Primeira pele
Na minha roupa suja
a história marcou
- as vestes do que fui
soterrei o amor
e nem o ruído dele ficou
- sufoquei o sentido
hoje me torno
estupor e furor
- onde ainda faça sentido
O que acontece
o que acontece por baixo
do que me faz na pele,
embaixo
o que acontece soterrado
entre quinquilharias esquecido
postergado, adiado, não visto
o que acontece embaixo
do solo e desse véu
um coração pulsa
bate, espassa, solta e pula
corre entre meus dedos
ganha a multidão
perco meu som, que sangra e corre de mim
como um cachorro infeliz
de cuja coleira se livrou
Corre a galopes, a sentir o vento do mar
a brisa que toca o coração a saltar
o toque macio que faz recordar
a vida, ainda
há vida, ainda
meu amor, ainda
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
o que termina, o que iniciará
sábado, 15 de novembro de 2025
eu não sou o meu passado
terça-feira, 7 de outubro de 2025
os mesmos
o barulho do fogo abre as minhas janelas
por dentro, já não consigo evitar
corredores - minhas veias
onde animais pulam, correm e gritam
as plantas caem no caminho
e resta o fervor do sangue
atravesso a incômoda realidade
de novo nós, os mesmos, sempre
a roer as pontes, a desver o laço
prometendo a si nunca mais reconhecer
o todo, antes do um
de novo nós, os mesmos, sempre
a desfazer a poesia viva
na terra-recurso-prometida
medida em acres, hectares, fitas
mas nunca em vida
de novo nós, os mesmos, sempre
cegos contumazes, tão acostumados com a luz de nosso esplendor
absolutos, evidentes, científicos
desorgânicos
entre dentes, sustentáculo da morte
vaidosamente exibida
no espetáculo de heróis
de novo nós, os mesmos, sempre
a fazer da vida a desculpa
para o espelho narcísico do amor
que de tanto olhar só para si
apodrece caule-folha-fruto
semi-deuses enlouquecidos
apressados a dizer: sentir não é ciência
ciência não é cheiro
a autorização sou eu
a vida queima na serra de são josé
durante todo dia o fogo
e durante a noite também
labaredas dançantes ao uivo dos ventos
a vida queima na serra de são josé
pequenez invisível aos olhos humanos
pardais, joaninhas, lagartos e fadinhas
são agora lembranças de muitas torras
a vida queima na serra de são josé
refletida em minhas retinas
a dor de tantas perdas
invisíveis ao homem comum
o ipê, a florescência que beira o riacho
os sapos, os coelhos e as pequenas raposas
todas abaixo do todo poderoso da cadeia alimentar
a vida queima na serra de são josé
mas só vale o perigo quando a casa é humana
casa de bicho não importa
de planta menos ainda
esses podem virar fogo e vento e cinzas
a vida importa na serra de são josé
essa mesma, pequenina, rasteira, rastejante
a aranha, o morcego, as formigas e o tamanduá
as libélulas, as borboletas, e cada bico e pena a voar
a vida queima - e importa
e ouvir seu som estala em mim a humanidade
a toda poderosa, senhora dos destinos
que define quem fica e quem vai
quem vive, quem pode, quem morre
quem não faz a menor diferença
a vida queima na serra de são josé
as lágrimas são mais que humanas
serão visíveis?
a vida importa na serra de são josé
essa que se desfaz e venta a poeira do que foi
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
O velho tomou seu café de manhã
Comeu um pedaço de pão, olhando a luz que vinha da janela
Sentou em frente ao fogão à lenha, enquanto observava o cães a regozijar uma caça
O que será que trouxeram agora?
O velho sentou no alpendre
Lembrou da antiga canção que lhe falava da força, do amor, do chão
Olhou para o chão. Sabia que era, em breve, seu destino.
Se demorou no olhar. Como será que estava Maria, abaixo daquela terra toda?
Deu de ombros. Fingiu não ligar. Voltou aos cachorros, que traziam consigo um gambá esfacelado.
Caras vermelhas de sangue, arfando a felicidade do abate.
Chega, sai daqui. Leva esse gambá junto ou vou enterrar ele também.
Não queria mais enterrar
A verdade é que a vontade-cachorro reinava no desejo de criar crateras do chão que trouxessem de volta seu amor
Ou quem sabe lhe pudessem confundir as vistas e ele, sem querer, se jogar no desfiladeiro ao lado de onde ficará pela eternidade o corpo de Maria.
Muitas vezes ele pensou, qual solução haveria
Mas hoje, ali, ao sol da manhã, o velho apenas olhava a vida dançar seu gesto sanguíneo
Pôr do sol
Um pôr do sol se faz à minha frente
Enquanto deito sobre ele meu olhar, derreto as vontades
Olho a paisagem ao meu redor, celebrando a vida
Se vem mais laranja, mais rosado ou bem azulado, pouco importa
A cada tarde, a beleza do que é imprime nos olhos a força do viver
Derramado em cores
Gosto de ver em pessoas pôr do sol
Observar, admirada, suas tonalidades
Reconhecer a luz que as delineia
Achar graça nas mudanças da estação, do humor, do tom
Me embebedo no amor pela vida
Essa, que me quer
Essa, que eu quero
A vida me abre
Aberta, me aqueço ao sol.
sexta-feira, 26 de setembro de 2025
o encontro
quinta-feira, 18 de setembro de 2025
sábado, 13 de setembro de 2025
A mãe que domina
A mãe que arrasa
A mãe que sargenteia
todas elas devidamente encarceiradas.
Agora a única maternidade é a doce
A que fala com voz de anjo
A que antes de explodir pelas emoções que tem lidou com cada uma delas e não descontou nada
no filho
no (ex) marido
na pulga da cachorra
no céu ou nas montanhas
A mãe de hoje é serena
Tradwives a fazer pão às 05h da manhã para que seu amo, digo, seu macho, digo, seu homem, digo, seu tutor, digo..
possa acordar com o cheiro quente que é seu desejo
Infinitos tutoriais
Como reconhecer os traumas da criança
Onde você está errando - e você está, pra sempre, errando... digo, errada... digo, não errante. digo..
todos ensinando a submeter
submeter a raiva, a opressão, o status quo, o que traria a sagrada necessidade de explodir a estrutura
para que haja paz
(que bonitinha)
(menininha da mamãe)
se a raiva não educa
então o mundo não muda
se ela não puder sentar à mesa e comer, junto a meus filhos
então que se virem as mesas, as cadeiras, os pratos e os copos e a comida voe pelos ares
